O verdadeiro golpe

sábado, dezembro 19, 2015

Paulo Skaf (*)
Muito se tem ouvido ultimamente, no debate político, a palavra golpe. Com frequência, é o termo usado para se referir ao processo de análise pelo Congresso Nacional do pedido de afastamento da presidente da República, Dilma Rousseff.

Esse processo, o impeachment, é previsto na Constituição Federal, vem sendo conduzido dentro das regras do Estado de Direito pelo Legislativo e se desenrola sob a vigilância do STF (Supremo Tribunal Federal). No momento, cada instituição cumpre seu papel, dentro das regras do jogo democrático. Não há qualquer sombra de golpe institucional.

Se formos, porém, buscar o significado da palavra golpe no dicionário, podemos, aí sim, apontar a sua existência nas mais variadas dimensões da vida brasileira, muitas vezes perpetrado por aqueles que hoje tentam se colocar no papel de vítima.

Se golpe é, entre suas definições, “ferimento ou pancada” e também “desgraça e infortúnio”, constatamos que a verdadeira vítima de golpe é, sim, a nação brasileira.

Afinal, é ou não é um golpe para as forças produtivas do país, por exemplo, a redução de mais de 3% do PIB neste ano? Trata-se de uma verdadeira pancada, pois nossa economia encolhe. O golpe é maior ainda porque as expectativas para 2016 são também muito ruins.

E não venham novamente por a culpa em uma suposta crise mundial. A economia do resto do mundo vai crescer cerca de 3%, e a previsão para os países emergentes chega a 4%. Quem vem andando para trás somos nós.

Esse é um golpe e tanto, principalmente quando as dificuldades são agravadas por erros do governo, que só fazem aprofundar a recessão, em vias de se tornar depressão –triste palavra que designa também os que sofreram duros golpes.

A queda de 9% na indústria em 2015, em relação a 2014, é o maior tombo desde 2003 e levou o setor à mesma participação que tinha no PIB nos anos do governo Juscelino Kubitschek. Isso fere não só a indústria, mas toda a economia brasileira.

O que dizer de outro duríssimo golpe, que é ter que demitir ou ser demitido em consequência da queda da economia? O ano de 2015 deve fechar com 1,6 milhão de demissões de trabalhadores com carteira assinada.

Segundo o IBGE, 9 milhões de pessoas procuraram emprego, sem encontrar, no terceiro trimestre do ano, elevando a taxa de desemprego para 8,9%, a maior desde 2012, quando começou a série histórica. Uma desgraça na vida desses brasileiros e de suas famílias, sem dúvida.

Cito outros exemplos. Existe golpe mais explícito em quem paga seus impostos com muito sacrifício do que a proposta de criar, aumentar e recriar impostos, como a CPMF? É golpista a ação de um governo que, incapaz de fazer o dever de casa e reduzir seus próprios gastos e desperdícios, tenta jogar a conta no colo da sociedade. Mas a sociedade não quer mais “pagar o pato”.

No mesmo dia (2/12) em que foi admitido o processo de impeachment, o Planalto comemorou a aprovação do projeto que mudou a meta fiscal e autorizou o governo a fechar este ano com um rombo de quase 120 bilhões no orçamento.

Isso é escandaloso e deveria ser motivo de vergonha, de um pedido de desculpas ao país. Nunca de comemoração. Estão festejando o quê? A incompetência para acertar as contas públicas? A irresponsabilidade por gastar demais?

Por fim, um dos maiores golpes que as autoridades podem desferir contra a população: a corrupção, que desvia recursos públicos da saúde, da educação e de outros serviços.

Diariamente somos golpeados com revelações estarrecedoras envolvendo agentes públicos, pagamento de propinas e negociatas diversas. Maior empresa do país e um de nossos orgulhos, a Petrobras foi duramente atingida.

O processo de impeachment, que segue seu curso dentro das normas constitucionais, é a chance para que a nação faça seu julgamento. É preciso que todos atuem em nome dos interesses maiores do Brasil.

(*) Presidente da Fiesp – Federação das Indústrias do Estado de São Paulo e do Ciesp – Centro das Indústrias do Estado de São Paulo

Artigo publicado na Folha de S. Paulo – Tendências e Debates – em 17 de dezembro de 2015.

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