PMDB deixará governo e lançará nome em 2018, diz Eliseu Padilha

segunda-feira, março 21, 2016
Ex-ministro da Aviação Civil Eliseu Padilha
Foto por: Jornal do Comércio
Porto Alegre (RS) - O ex-ministro da Aviação Civil Eliseu Padilha (RS) – braço direito do vice-presidente Michel Temer (SP) – defendeu a saída dos peemedebistas do governo da presidente Dilma Rousseff (PT). “O PMDB vai ter uma candidatura à presidência em 2018, e o PT já anunciou que vai ter outra, por isso não podemos mais continuar juntos”. Quanto ao processo de impeachment contra a presidente, acredita que o seu partido “não deve fazer nada” a respeito.

Padilha foi articulador político do governo federal no início do segundo mandato de Dilma. Ele foi o responsável por apagar os primeiros focos de incêndio na base aliada. Antes disso, fez campanha no Rio Grande do Sul para a chapa Dilma-Temer, quando o diretório estadual apoiou os adversários Marina Silva (na época PSB, hoje Rede), no primeiro turno; e Aécio Neves (PSDB), no segundo. Contudo, já naquela época, defendia uma candidatura própria do PMDB à presidência da República.

Nesta entrevista ao Jornal do Comércio, ele analisa o papel da legenda no governo federal, no Congresso Nacional e na Comissão de Impeachment instalada na Câmara dos Deputados. Sobre a nomeação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para contornar a crise no Palácio do Planalto, Padilha não vislumbra melhora. “Uma pessoa só não muda esse cenário.”

Para o ex-ministro, as notícias sobre as acusações contra o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) – que teria contas secretas no exterior -, prejudicam o PMDB. Entretanto, avaliou que Cunha “foi seguramente um dos presidentes que mais produziram trabalho legislativo, além de tornar a Câmara realmente independente”.

Jornal do Comércio - Na última convenção, o PMDB resolveu não assumir mais cargos no governo federal até decidir sobre a saída da gestão Dilma. O partido sai da gestão Dilma? E quando?

Eliseu Padilha - Presidi a convenção do PMDB. Foram seis horas de microfone aberto em que a crítica ao governo e o clamor pelo rompimento foram constantes. Não teve nenhum discurso em favor da manutenção da aliança. A maioria absoluta não vou dizer a totalidade, apesar de que não tenha tido ninguém se manifestado a favor é pelo rompimento e desembarque do governo.

JC - E o partido sai do governo para viabilizar a candidatura própria em 2018…

Padilha - Onze em cada 10 peemedebistas querem a candidatura própria à presidência da República. O PT já disse que terá seu nome para 2018. Se o PMDB vai ter uma candidatura a presidente e o PT vai ter outra, se o PMDB não vai apoiar o PT e o PT não vai apoiar o PMDB, não podemos mais continuar juntos, porque não poderemos defender o que eles defendem e vice-versa. Além disso, nós não formulamos as políticas públicas, e a presidente da República é do PT, portanto quem tem que sair somos nós. É importante que o PMDB não fique fazendo uso do governo, uma vez que o seu projeto de governo é diferente. Defendo isso desde a época em que fazia a articulação política da presidente Dilma.


JC - No encontro dos peemedebistas da região Sul, o ex-governador Germano Rigotto manifestou preocupação com a maneira como o PMDB sairia do governo, para não aumentar a crise política e econômica do País. Como deve ser essa saída?

Padilha - Tem que conversar com o PT e com a presidente Dilma, olhando nos olhos, com franqueza, com transparência. Dizer que temos projetos diferentes e que vamos submetê-los ao povo em 2018. Temos que construir um caminho próprio, de cabeça erguida, saindo do governo pela porta de frente. Temos que mostrar que foi muito bom enquanto durou, mas que agora vamos cuidar do nosso, enquanto eles cuidam do deles.

JC - Com a convocação da reunião do diretório nacional para o dia 29 de março, existe a possibilidade de antecipar a saída do governo federal?

Padilha - Essa reunião é para justamente tomar essa decisão, para decidir as propostas de desembarque do governo. E o que for decidido vai ser cumprido por todo o partido.

JC - Às vezes, a saída de um partido do governo é dificultada pela resistência de alguns quadros em entregar os cargos que conseguiram. Como sente a disposição dos ministros peemedebistas em deixar os ministérios?

Padilha - Na convenção, senti que o PMDB não admite a hipótese de alguém contrariar a decisão do encontro. Quem não quiser mais ser pemedebista, não obedeça mais o partido. Se quiser ser pemedebista, obedeça a decisão da convenção. Aí tu poderias me contrapor: “não tem sido essa a posição do PMDB (pois tem tolerado os dissidentes)”. É verdade. Só que cansamos. Cada vez que tu compactuas com esse tipo de comportamento, vais perdendo um pouco da tua franquia, porque o partido não se impõe como partido. A legenda tomou uma decisão, quem for filiado tem que obedecer. A decisão da convenção é lei dentro do PMDB. Quem não obedecer a lei, deve ser punido pela lei.

JC - Como avalia a posse do novo ministro da Aviação Civil, o peemedebista Mauro Lopes, que desafiou a deliberação da convenção nacional?
Padilha - O fato é que ele tomou posse e, ao fazer isso, 12 diretórios estaduais entraram com uma representação no diretório nacional do PMDB, buscando a punição dele. Também tem outra representação de algumas dezenas de deputados federais. Agora, temos que deixar o processo andar dentro do partido.

JC - Pelo que observou na convenção nacional, o PMDB sai do governo para ser oposição ou independente?
Padilha - Acho que mesmo com o fato de termos a vice-presidência da República mesmo com a saída do governo, o Michel Temer continua sendo vice-presidente , saímos do governo com uma postura independente. Afinal, por sermos o maior partido do Brasil, por estarmos organizados em todos os estados, em quase todos os municípios brasileiros, há uma tendência de o PMDB se tornar a força aglutinadora tanto nas eleições de 2018 quanto nas deste ano. A posição de independente, de centro, que não é nem governo e nem oposição radical, facilita a migração tanto dos governistas inconformados quanto da oposição que queira participar de um projeto coletivo com a maior legenda do Brasil.


JC - Não teme que essa posição do vice-presidente, inclusive como possível candidato em 2018, cause algum desconforto…

Padilha - Nenhum temor de ter problema. Primeiro, porque o Michel não se declara candidato a presidente em 2018. Ao contrário, o Michel acredita que o partido deve fermentar essa ideia para fazer surgir muitos nomes. O PMDB tem história, tem marca, tem tradição, tem qualificação para ter vários nomes capazes de disputar a presidência da República.

JC - Qual a sua expectativa quanto ao processo de impeachment?

Padilha - Em primeiro lugar, durante muito tempo, se falou que o impeachment era coisa do Eduardo Cunha (PMDB-RJ), mas, a partir do momento que saiu do Supremo Tribunal Federal (STF), o impeachment é do STF. Segundo, quanto ao rito, ninguém mais vai opinar sobre isso, porque, com a decisão do STF, quem estiver presidindo a Câmara ou o Senado – seja quem for – tem que obedecer a deliberação da Suprema Corte. Mas, uma vez que foi decidido o rito, voltando o processo ao Congresso, a Câmara dos Deputados e o Senado vão dizer onde reside a ilegalidade cometida pela presidente, caso tenha existido, para que o processo possa ir rumo ao final. Então, é um processo marcadamente político, tem mais força política do que legal, apesar de que, sem o componente legal, o impeachment não existe. Além disso, para ocorrer o impedimento, tem que ter grande mobilização da cidadania, o que a gente tem visto nas ruas.

JC - Qual o papel do PMDB no impeachment?

Padilha - O que o PMDB pode fazer nisso? Nada. O que o PMDB deve fazer nisso? Nada. Deve falar sobre isso? Também não. O PMDB deve ficar cansado de fazer nada, deve ficar rouco de tanto ouvir. Por quê? Porque o PMDB, por definição constitucional, tem o vice-presidente da República. E a constituição diz que a função única do vice-presidente da República é substituir o presidente em seu impedimento. Então não tem que se fazer absolutamente nada. O Ulysses Guimarães dizia que político só tem medo de povo na rua. Então, a rua é que, em última análise, vai decidir se há ou não impeachment.

JC - Acredita que a nomeação de Lula pode modificar o cenário de crise no Planalto?

Padilha - Acho que é absolutamente indiferente. A situação (crise política, processo de impeachment) está muito consolidada. Uma pessoa só não muda esse cenário.

JC - Na eleição para a liderança da bancada do PMDB na Câmara dos Deputados, o candidato reeleito, deputado Leonardo Picciani (PMDB-RJ), foi criticado por indicar parlamentares governistas para a primeira Comissão de Impeachment, antes de o rito ser questionado no STF. Agora, acredita que Picciani, como líder da bancada, pode interferir no processo e impedimento?

Padilha - Temos alguns sinais, que não são tão objetivos, mas que respondem a pergunta. O primeiro sinal é a rua. Uma vez que os parlamentares vão ter voto aberto, vão votar conforme a rua ou conforme o Picciani? O segundo sinal é que o PMDB do Rio de Janeiro, na convenção, não fez nenhum discurso para defender o governo, nem mesmo o Picciani. Talvez, o estado do Rio também esteja se subordinando às decisões da convenção nacional. E, nesse caso, o deputado Leonardo Picciani, em que pese seja um líder eficiente e trabalhador, não vai se colocar frontalmente contra toda a bancada. Acho que, agora, a bancada vai ser muito mais conduzida pela voz das ruas do que pela dele.

JC - Embora não seja a principal possibilidade neste momento, existe a chance de o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) processar a chapa eleita em 2014 Dilma-Temer. Como avalia isso?

Padilha - Juridicamente, a chamada unicidade da chapa entre vice e presidente acaba no momento em que se proclama o resultado da eleição. As contas do vice-presidente foram separadas das da presidente. O dinheiro que entrou na conta da presidente foi administrado por ela, e o dinheiro que entrou na do Michel Temer foi administrado pelos responsáveis por essa conta. Foram CNPJs diferentes. A prestação de contas é que foi única, no mesmo documento. Portanto, esta distinção entre as contas dos dois, que não está sendo feita agora, será feita quando for a hora, se for o caso.

JC - Qual a sua avaliação do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, diante das acusações contra ele?

Padilha - Primeiro, o Eduardo Cunha, esquecendo essas questões que estão hoje sendo trazidas à discussão no campo ético e legal, foi seguramente um dos presidentes que mais produziram trabalho legislativo. Implantou um ritmo personalíssimo lá, a Câmara votou como nunca, além de se tornar realmente independente. De outra parte, com todo esse questionamento que existe sobre ele, acho que tem que ser garantido a ele o mais amplo direito de defesa. Só ele sabe a extensão e a veracidade das acusações contra ele e certamente vai produzir a sua defesa. O que sei é que ele é muito ágil, conhece o regimento da Câmara como poucos, maneja ele como poucos e tem uma tropa de choque.

JC - Para o PMDB, é melhor que ele permaneça no cargo ou saia?

Padilha - Para o PMDB, como partido, a presidência da Câmara é algo muito importante, na medida em que o presidente da Câmara possa exercer a sua atividade administrativa de presidente com eficácia. Mas, se a eficácia ficar comprometida, por óbvio que ele deverá ter cuidado na condução da Câmara para que não cause prejuízo ao partido.

JC - O senhor afirmou que a Operação Lava Jato não fez nem um quarto do que ela ainda vai fazer. O que isso quer dizer?
Padilha - Converso com muita gente, inclusive no Ministério Público Federal. Por isso, sei da extensão, não do conteúdo, das delações que estão por vir. Por exemplo, as delações de Delcídio Amaral (ex-PT), que vieram à tona agora. Só os elementos que o depoimento do Delcídio traz, se prestariam a investigar no mínimo 200 pessoas. O presidente da Andrade Gutierrez, pela informação que é dada, referiu 121 políticos. Nada disso ainda veio à consideração. Pedro Corrêa, ex-presidente do PP, está apresentando a sua proposta de delação premiada, na qual se propõe a falar tudo que ele sabe da base do governo, desde, segundo ele, o presidente Itamar Franco (PMDB, 1992-1994). Além disso, os dirigentes da Odebrecht e da OAS estão se preparando para falar também. A Lava Jato começou com doleiro, depois com servidores da Petrobras, depois empresários e, agora, está chegando aos políticos, onde certamente vamos ter o maior volume de matérias.


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